O sistema financeiro brasileiro está prestes a conhecer uma nova geração de inteligência artificial, uma que não apenas responde perguntas ou sugere opções, mas age concretamente em nome do usuário, incluindo a parte que sempre ficou fora do alcance dos assistentes digitais: efetuar o pagamento.
A Visa anunciou o Visa Agentic Ready, programa que permite aos bancos parceiros testar o uso de IA agêntica em transações financeiras reais. Os primeiros participantes no Brasil são Bradesco, Banco do Brasil, Santander, XP e Dock — e os testes ocorrerão em ambiente controlado, envolvendo também comerciantes selecionados.
O que é uma IA agêntica e por que isso muda tudo
Ao contrário dos assistentes de IA convencionais, que respondem perguntas e apresentam informações para que o usuário tome uma decisão, as IAs agênticas são projetadas para tomar decisões e executar tarefas de forma autônoma. No contexto bancário, isso significa que a tecnologia não apenas encontra a melhor opção para uma compra, ela também realiza o pagamento, do início ao fim, com a autorização prévia do usuário.
Na prática, um cliente poderia instruir sua IA a encontrar um hotel disponível por uma semana com valor máximo de R$ 1 mil. O sistema faria toda a pesquisa, selecionaria as opções mais alinhadas às preferências do usuário e, com as permissões configuradas, concluiria a reserva e o pagamento, sem que o usuário precise tocar em nenhuma etapa intermediária.
Hoje, mesmo os assistentes mais avançados interrompem o processo justamente na hora de pagar, devolvendo essa tarefa ao usuário. O Visa Agentic Ready propõe eliminar exatamente esse gargalo.
Um sistema construído para proteger as transações
A Visa foi cuidadosa em destacar que a tecnologia não opera sobre infraestruturas genéricas de IA. O programa roda em um sistema customizado da própria empresa, desenvolvido especificamente para garantir a segurança das transações financeiras processadas por agentes autônomos, um requisito crítico quando se fala em autorizar pagamentos sem intervenção humana direta.
A configuração das permissões também é um elemento central do modelo: o usuário define previamente os limites dentro dos quais a IA pode agir — valores máximos, categorias de gasto, fornecedores autorizados. A autonomia da ferramenta opera dentro dessas fronteiras estabelecidas pelo próprio cliente.
O Mastercard também está na corrida
A Visa não está sozinha nessa aposta. O Mastercard já iniciou testes semelhantes no Brasil, com foco no Itaú Unibanco e no Santander. A movimentação simultânea das duas maiores bandeiras de cartão do mundo em direção à IA agêntica bancária no país sinaliza que essa não é uma tendência distante, é uma transformação que está sendo construída agora, com bancos e infraestrutura já em operação no mercado brasileiro.
O impacto silencioso para o comércio digital
Além de mudar a experiência do consumidor, a chegada das IAs agênticas ao sistema financeiro também transforma a lógica dos sites e aplicativos de comércio. Se antes as plataformas precisavam convencer o usuário humano a concluir uma compra — com botões chamativos, promoções e interfaces intuitivas —, agora elas precisarão ser estruturadas para que os agentes de IA consigam navegar, interpretar e interagir com elas de forma eficiente. Isso significa que o próximo cliente a ser “conquistado” por uma loja virtual pode ser, cada vez mais, um algoritmo.
O uso da tecnologia será opcional e não obrigatório aos usuários. Mas para quem optar por adotá-la, a promessa é clara: delegar as tarefas mais repetitivas e operacionais do dia a dia financeiro para uma IA que age de verdade.