Elon Musk chamou a Anthropic de “misantrópica” e disse que “vencer nunca esteve no conjunto de resultados possíveis” para a empresa. A Anthropic processou o governo dos EUA — do qual Musk é figura próxima — após ser classificada como risco à segurança nacional pelo Pentágono. E mesmo assim, nesta quarta-feira (6), as duas empresas anunciaram um dos acordos de infraestrutura mais expressivos do setor de inteligência artificial: a Anthropic passará a usar toda a capacidade de processamento do Colossus 1, o monumental data center da SpaceX localizado em Memphis, no Tennessee.
O que é o Colossus 1 e o que ele representa para o Claude
O Colossus 1 não é um data center qualquer. Construído pela SpaceX para abrigar sua divisão de IA, a SpaceXAI — empresa resultante da fusão da SpaceX com a xAI, anunciada recentemente por Musk —, o complexo é um dos maiores do mundo em capacidade de processamento de IA. Com o acordo, a Anthropic ganha acesso a mais de 300 megawatts de capacidade computacional e a mais de 220 mil GPUs da Nvidia, disponíveis já no prazo de um mês.
O impacto para os usuários é imediato e concreto. Segundo comunicado oficial da Anthropic, a nova capacidade permite dobrar os limites de uso do Claude Code para assinantes dos planos Pro, Max, Team e Enterprise — já a partir desta quarta-feira. Também serão eliminadas as reduções automáticas de limite que ocorriam durante os horários de pico para usuários Pro e Max, e os volumes de requisições via API para os modelos Claude Opus serão “consideravelmente” aumentados.
O anúncio foi feito durante o evento anual “Code with Claude”, voltado a desenvolvedores, o que reforça o foco da empresa em melhorar a experiência justamente para seu público mais técnico e exigente.
Por que o acordo era urgente
A Anthropic não estava apenas buscando crescimento, estava correndo contra o tempo. Nos últimos meses, uma enxurrada de reclamações de assinantes pagos tomou conta das redes sociais: usuários relatavam atingir os limites de uso após poucas tarefas e precisar esperar horas para retomar o trabalho. A empresa chegou a reconhecer publicamente que a demanda pelo Claude havia criado uma “pressão inevitável sobre a infraestrutura”, afetando a confiabilidade e o desempenho da plataforma, especialmente nos horários de maior uso.
O acordo com a SpaceX resolve esse gargalo de forma imediata — algo que os outros contratos da Anthropic ainda não conseguiam fazer. A empresa tem acordos de longo prazo com Amazon (até 5 gigawatts, com quase 1 GW previsto para entrar online ainda em 2026), com Google e Broadcom (5 GW a partir de 2027), com Microsoft e Nvidia ($30 bilhões em capacidade Azure) e um investimento de $50 bilhões em infraestrutura americana com a Fluidstack. Mas toda essa capacidade está sendo construída — o Colossus 1 já existe e já funciona.
O paradoxo Musk: de crítico ferrenho a parceiro surpresa
A dimensão política do acordo não passou despercebida pelo mercado. Até esta semana, Musk era um dos críticos mais vocais da Anthropic — chegando a dizer que a empresa estava “condenada a se tornar o oposto de seu nome”, ou seja, misantrópica. O Departamento de Defesa, sob influência de figuras próximas a Musk, chegou a classificar a Anthropic como risco à cadeia de suprimentos e baniu a empresa de contratos federais.
A virada de tom veio de forma inusitada. Em uma publicação no X, Musk afirmou ter passado muito tempo com membros sênior da equipe da Anthropic na última semana — coincidentemente, semana em que também testemunhou por três dias no julgamento de seu processo contra a OpenAI em Oakland. “Fiquei impressionado. Todos que conheci eram altamente competentes e se importavam genuinamente em fazer a coisa certa. Ninguém ativou meu detector de maldade”, escreveu. “Enquanto se engajarem em autoexame crítico, o Claude provavelmente será bom.”
A IA no espaço: o próximo passo
Um detalhe do anúncio chamou atenção especial da comunidade tecnológica: além do acordo terrestre, a Anthropic declarou ter “expressado interesse” em parceria com a SpaceX para desenvolver múltiplos gigawatts de capacidade computacional orbital — ou seja, data centers no espaço.
A ideia, ainda em estágio de interesse e não de contrato formal, aponta para uma fronteira completamente nova na infraestrutura de IA: satélites ou estações orbitais funcionando como clusters de processamento, aproveitando a expertise da SpaceX em lançamentos e operações espaciais. Se concretizada, seria uma das apostas mais ambiciosas já feitas no setor.
O timing perfeito para a SpaceX
O acordo também chega em um momento estratégico para a SpaceX. A empresa está se preparando para um IPO previsto para junho de 2026, e ter a Anthropic — avaliada em aproximadamente US$ 900 bilhões em sua mais recente rodada de captação — como cliente âncora de seu data center fortalece significativamente o argumento de que a SpaceX é, agora, também uma empresa de infraestrutura de IA — e não apenas de foguetes e satélites.