O crescimento acelerado da Inteligência Artificial (IA) vem redefinindo profundamente a forma como a sociedade produz, consome e se comunica. Paralelamente aos benefícios, observa-se um fenômeno preocupante: o aumento expressivo do roubo digital impulsionado pelo uso estratégico de tecnologias baseadas em IA. O crime cibernético entrou em uma nova fase — mais automatizada, personalizada e difícil de detectar.
O roubo digital, que tradicionalmente envolvia técnicas como phishing genérico, malwares básicos e engenharia social manual, passou a explorar modelos inteligentes capazes de aprender comportamentos humanos, analisar grandes volumes de dados e adaptar ataques em tempo real. Essa transformação amplia significativamente os riscos para indivíduos, empresas e instituições públicas.

Fonte: Autoria própria
A Inteligência Artificial como Catalisadora do Crime Digital
Criminosos digitais passaram a empregar IA para potencializar fraudes, roubos de identidade, invasões de contas e golpes financeiros. Modelos de linguagem e automação permitem a criação de mensagens altamente convincentes, com linguagem natural, coerência contextual e personalização baseada em dados públicos ou vazados.
Esse cenário marca uma mudança estrutural: os ataques deixam de ser massivos e passam a ser direcionados, simulando comunicações legítimas de bancos, empresas, órgãos públicos ou até pessoas conhecidas da vítima.
Entre os principais usos da IA em atividades criminosas, destacam-se:
- Geração automatizada de campanhas de phishing altamente personalizadas;
- Utilização de deepfakes de voz e imagem para fraude de identidade;
– Análise de grandes bases de dados vazados para seleção de alvos; - Automação de testes de credenciais e ataques de acesso não autorizado.
Evidências e Dados Públicos Sobre a Escalada do Roubo Digital. Relatórios técnicos internacionais e nacionais demonstram crescimento contínuo dos crimes digitais, com impacto financeiro relevante e aumento da sofisticação técnica.
Segundo dados oficiais do FBI Internet Crime Complaint Center (IC3), os prejuízos associados a crimes cibernéticos já ultrapassam bilhões de dólares por ano, com destaque para fraudes financeiras, golpes digitais e roubo de identidade. Esses números refletem apenas os incidentes reportados, indicando que o impacto real tende a ser maior.
O Verizon Data Breach Investigations Report (DBIR) aponta, de forma consistente, que engenharia social, phishing e uso indevido de credenciais continuam entre os principais vetores de ataques, agora associados à automação e ao uso de IA para escalar operações criminosas.
No Brasil, o CERT.br registra crescimento contínuo de incidentes relacionados a fraudes digitais, golpes online e comprometimento de dados pessoais, especialmente envolvendo e-mail corporativo, dispositivos móveis e redes sociais.
Impactos Reais para Pessoas e Organizações. O roubo digital potencializado por IA vai além do prejuízo financeiro. Ele gera danos reputacionais, impactos psicológicos, interrupções operacionais e riscos jurídicos, sobretudo em um contexto de legislações de proteção de dados mais rigorosas.
Pequenas e médias empresas figuram entre os alvos preferenciais, muitas vezes por não possuírem maturidade em segurança da informação. Usuários finais, por sua vez, enfrentam golpes extremamente convincentes, com alto grau de realismo e dificuldade de identificação.
Desafios Atuais da Defesa Cibernética: - A principal dificuldade enfrentada pelas organizações está no fato de que muitas soluções defensivas ainda operam de forma estática, enquanto os ataques se tornam dinâmicos, adaptativos e inteligentes.
Esse novo cenário exige: - Adoção de tecnologias defensivas baseadas em IA e análise comportamental;
- Programas contínuos de conscientização e capacitação;
- Integração entre segurança da informação, governança e resposta a incidentes;
- Postura preventiva, com foco em redução de risco e resiliência digital.
Conclusão
A inteligência artificial representa uma fronteira tecnológica com inegáveis benefícios, mas também um vetor de amplificação sem precedentes para crimes digitais. A integração de IA por criminosos exige que defensores da segurança, sejam profissionais de TI, gestores ou usuários comuns, não só atualizem suas práticas, mas também adoptem uma mentalidade proativa frente às ameaças.
O “roubo digital assistido por IA” não é mais uma hipótese futura, ele já está em curso e demanda respostas estratégicas e colaborativas para proteger dados, patrimônio e, sobretudo, a confiança na era digital.

Referências Bibliográficas
CERT.br – Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil. Estatísticas de incidentes reportados. São Paulo: NIC.br, [s.d.]. Disponível em: https://stats.cert.br/incidentes/. Acesso em: 23 dez. 2025.
FEDERAL BUREAU OF INVESTIGATION (FBI). Internet Crime Report 2023. Washington, DC: FBI Internet Crime Complaint Center (IC3), 2024. Disponível em: https://www.ic3.gov/Media/PDF/AnnualReport/2023_IC3Report.pdf. Acesso em: 23 dez. 2025.
VERIZON. 2024 Data Breach Investigations Report (DBIR). New York: Verizon Business Group, 2024. Disponível em: https://www.verizon.com/business/resources/reports/dbir/2024. Acesso em: 23 dez. 2025.
E-COMMERCE BRASIL. Golpes com IA e vazamentos de dados crescem no 3º trimestre. São Paulo: E-commerce Brasil, [s.d.]. Disponível em: https://www.ecommercebrasil.com.br/noticias/golpes-com-ia-e-vazamentos-de-dados-crescem-no-3o-tri. Acesso em: 23 dez. 2025.