Em um cenário global dominado por investimentos bilionários e tecnologias de larga escala, o Brasil pode seguir um caminho alternativo para se destacar no campo da inteligência artificial: desenvolver soluções aplicadas a problemas reais e setores estratégicos da economia. Essa foi a proposta do painel “Um propósito chamado Brasil”, durante o AI Brasil Experience — evento realizado nos dias 30 e 31 de outubro, no Distrito Anhembi, em São Paulo.
Com foco em áreas como saúde, finanças, mobilidade urbana e indústria, os executivos da Semantix AI – deep tech brasileira referência em Big Data, Analytics e Inteligência Artificial, Leonardo Santos e Alexandre Caramaschi, defenderam que o país pode construir protagonismo ao investir em propriedade intelectual local, dados estruturados e talentos técnicos. “É possível fazer tecnologia de ponta aqui, desde que se comece com a pergunta certa: qual problema estamos resolvendo?”, afirmou Santos, CEO da empresa.
A companhia apresentou exemplos de soluções desenvolvidas no Brasil, como o algoritmo para detecção de Covid-19 criado em parceria com a Unicamp e doado ao Estado de São Paulo, ferramentas de previsão de cancelamento em planos de saúde, e a gestão de dados de aproximadamente um milhão de semáforos conectados em São Paulo. No setor financeiro, a Semantix atua com bancos e birôs de crédito, processando dados que alimentam scores utilizados por milhões de brasileiros.
IA com retorno mensurável e foco em eficiência
O painel abordou também um alerta recorrente no setor: o uso indiscriminado da inteligência artificial por empresas que ainda não têm objetivos claros ou maturidade digital. Citando estudo do MIT, Leonardo Santos lembrou que 95% das empresas investem em IA sem clareza de propósito. “Sem problema definido, não há valor gerado. Não adianta subir infraestrutura se os dados estão desorganizados ou o problema não foi formulado”.
Nesse contexto, o Brasil poderia ganhar vantagem ao focar em ganhos de eficiência operacional e soluções pragmáticas. Alexandre Caramaschi, CMO da empresa, complementou: “A maior parte do impacto ainda está no básico bem feito. O arroz com feijão resolve mais do que parece”.

Inovação com base local e exportação de conhecimento
Os executivos relembraram a trajetória da Semantix nos últimos anos, que passou por transformações constantes. Primeira deep tech da América Latina, pioneira em inteligência artificial muito antes do boom do ChatGPT, a empresa fez história em 2022 ao ser listada internacionalmente na Nasdaq com valuation de US$1 bilhão.
Dois anos depois, o fundador Leonardo Santos decidiu recomprar a empresa e a manter apenas no balcão da bolsa norte-americana para reajustar processos internos e rever estrutura e cultura com mais agilidade. Com novos produtos, novos M&As e um olhar voltado para a tecnologia feita no Brasil e para o Brasil, a Semantix vive uma nova fase com um projeto claro: atingir R$1 bilhão de receita até 2030 e se tornar ainda maior do que era antes do IPO.
Inclusive, a Semantix anunciou durante o evento a criação de um laboratório de IA na Universidade Federal de Goiás (UFG), como parte da estratégia de reforçar o ecossistema de inovação brasileiro e aproximar mercado, academia e políticas públicas. Segundo a empresa, o desenvolvimento de soluções técnicas no Brasil não apenas é viável, como já acontece em escala, inclusive com tecnologias exportadas para países como Alemanha e Turquia.
“Há diversos profissionais brasileiros em posições-chave de empresas globais, incluindo contribuições em tecnologias como reinforcement learning e linguagens de programação usadas em IA generativa. O Brasil tem conhecimento técnico e criatividade. O que falta é transformar isso em política de longo prazo, incentivo estruturado e ambiente propício à inovação”, concluiu Leonardo.
Sobre a AI Brasil
A AI Brasil é um hub de inteligência artificial, criado para posicionar o Brasil como referência global em IA e tornar a tecnologia mais acessível, compreensível e aplicável para todos, sendo facilmente integrada no dia a dia das pessoas e empresas. Fundada em 2024 por Alexandre Caramaschi, Pedro Chiamulera e Leonardo Santos, agora comandada pela CEO Tatiana Oliveira, a AI Brasil já conectou mais de 14 mil membros e 100 empresas, promovendo capacitação, troca de conhecimento e aplicação real da IA nos negócios. A iniciativa reúne especialistas, líderes e entusiastas em eventos, fóruns, workshops e conteúdos diversos, sempre com foco em educação, inovação, propósito e impacto