A revolução silenciosa da IA: como a tecnologia está redesenhando o trabalho em TI

A IA já está reformulando funções tradicionais e exigindo dos profissionais de TI habilidades mais estratégicas, criativas e analíticas

A inteligência artificial já está no centro das operações de TI das empresas. Ao contrário do receio comum de que esteja apenas substituindo trabalhadores por sistemas automatizados, especialistas ouvidos pelo Intelligence.Garden apontam que o verdadeiro ganho está na produtividade e na elevação qualitativa do perfil dos profissionais. Ao eliminar tarefas repetitivas, a tecnologia permite que equipes enxutas entreguem mais valor com mais qualidade — e com menos necessidade de supervisão constante.

A IA já está reformulando funções tradicionais e exigindo dos profissionais habilidades mais estratégicas, criativas e analíticas. No suporte técnico, automatiza atendimentos básicos e previne falhas. No desenvolvimento, acelera a criação e o teste de códigos. Em segurança, detecta e responde a ameaças em tempo real, antecipando ataques.

Em outras palavras, otimiza rotinas, liberando equipes para tarefas estratégicas e inovadoras”, resume Marcel Davila – CTO da p2xPay, fintech brasileira que oferece soluções de pagamento para empresas.

Segundo Marcel, a consequência disso é elevar o perfil dos profissionais, que agora precisam focar em habilidades mais estratégicas, acelerando sua curva de aprendizado.

“A IA está aumentando drasticamente a produtividade das equipes, não apenas substituindo profissionais. Ao automatizar tarefas rotineiras, ela libera os talentos para focar em estratégias, inovação e resolução de problemas complexos. Com isso, times menores agora entregam muito mais, pois a curva de aprendizado é acelerada, e a dependência de um tutor para tarefas básicas diminui”, diz.

Rodrigo Streithorst, CEO da Maieutics.ai, empresa que tem como missão transformar as rotinas dos educadores com o uso da inteligência artificial, observa uma migração do trabalho operacional para um modelo mais estratégico. “Na Maieutics, por exemplo, a IA está sendo utilizada para transformar conteúdos educacionais em avaliações automatizadas, o que libera os professores para atuarem mais no planejamento pedagógico do que na tarefa técnica de produção. Com TI acontece algo semelhante: a IA não substitui o profissional, ela devolve a ele tempo e espaço para pensar com profundidade”, diz.

Nesse cenário, empresas estão priorizando a requalificação de suas equipes de TI com programas de treinamento contínuo, parcerias com plataformas de ensino e foco em habilidades emergentes — como Machine Learning, engenharia de prompts e ética da IA. Programas internos de requalificação, trilhas de aprendizado em plataformas como Coursera, Udemy e parcerias com universidades são cada vez mais comuns.

Novas habilidades passaram a ser exigidas, e o mercado agora demanda profissionais especializados em engenharia de IA, análise de dados complexos, segurança da informação avançada e automação. Além do domínio técnico, são cada vez mais valorizadas competências como pensamento crítico, adaptabilidade e capacidade de aprender continuamente.

No Grupo Inove, consultoria gerencial e empresarial, foi criada uma frente de formação voltada ao uso de ferramentas de IA no atendimento e na gestão de dados, promovendo workshops e mentorias. A prioridade é desenvolver um mindset adaptativo, que permita ao profissional aprender a trabalhar junto com a IA, e não contra ela.

“ Hoje o mercado procura pessoas com pensamento crítico, capacidade de interpretar dados e, principalmente, habilidades para treinar e supervisionar sistemas inteligentes. Não se trata de substituir profissionais, mas de elevar a exigência técnica e comportamental desses talentos. Saber programar é importante, mas entender o negócio e saber usar a IA de forma estratégica virou diferencial competitivo”, aponta João Paulo Ribeiro, especialista em cultura organizacional e CEO do Grupo Inove.

Na prática, o que acontece, muitas vezes, é uma redistribuição das funções. O profissional que antes passava o dia apagando incêndios, agora consegue atuar com foco em melhorias estruturais.

“Com isso, o perfil profissional desejado passa a exigir não apenas domínio técnico, mas também capacidade crítica, visão de negócio e sensibilidade ética, complementa Rodrigo Streithorst.

Riscos éticos e de segurança exigem vigilância

Apesar das vantagens, o uso da IA em processos críticos de TI traz riscos importantes, tanto éticos quanto operacionais. Entre eles estão os vieses algorítmicos, que podem resultar em decisões discriminatórias, a dificuldade de rastrear decisões automatizadas, e a criação de novas superfícies de ataque digital.

“A IA em processos críticos gera riscos éticos como vieses e decisões discriminatórias. Em segurança, expõe a novas superfícies de ataque e dificulta a rastreabilidade. A dependência excessiva pode levar à perda de controle humano. Gerenciar isso exige governança, transparência e vigilância constante”, alerta Marcel Davila.

A resposta das empresas passa por investir em governança, transparência e vigilância constante sobre os sistemas inteligentes. “É essencial garantir que a supervisão humana continue presente e que os dados utilizados pelos algoritmos sejam éticos e auditáveis”, reforça João Paulo Ribeiro.

O novo papel do profissional de TI

Nesse cenário, o profissional de TI assume um papel mais estratégico do que nunca. Ele passa a ser o arquiteto de sistemas inteligentes, responsável por projetar, monitorar e evoluir ecossistemas tecnológicos cada vez mais autônomos. Novas funções ganham espaço, como Engenheiro de Prompt, Especialista em Ética de IA e Arquiteto de IA.

“Não é mais sobre escrever código apenas, mas desenhar jornadas tecnológicas com propósito. O TI do futuro é aquele que entende de tecnologia, mas também de cultura, pessoas e processos, Saber programar é importante, mas entender o negócio e saber usar a IA de forma estratégica virou diferencial competitivo”, diz Ribeiro.

Mas mesmo com sistemas autônomos, ainda será necessário alguém capaz de supervisionar, ajustar e alinhar a IA aos objetivos organizacionais.

“Na Maieutics.ai trabalhamos com revisão humana obrigatória de todos os conteúdos gerados pela IA e aplicamos princípios de uso responsável desde o design da plataforma. Isso é essencial para garantir que os modelos estejam a serviço da missão da empresa e não atuando de forma descolada da realidade. É esse equilíbrio entre automação e supervisão humana que garante segurança e ética nos ambientes corporativos”, diz Streithorst.

“O profissional de TI e será o arquiteto e estrategista, focado em projetar, gerenciar e otimizar ecossistemas de IA. Seu papel é crucial na governança ética e segura, identificando novas aplicações e resolvendo problemas que exigem a inteligência humana. É uma evolução essencial da função”, acrescenta Davila.

Por outro lado, o especialista, investidor anjo e consultor em IA além de CEO da M2BR Academy , Ricardo Marsili aponta que os profissionais juniores e aqueles que atuam em tarefas mais repetitivas — especialmente em áreas de suporte e desenvolvimento — tendem a ser os mais impactados com a chegada massiva da inteligência artificial nesses setores.

Segundo ele, já é possível observar uma mudança no perfil das vagas, que passam a privilegiar profissionais com competências mais analíticas. Isso, no entanto, pode representar um desafio, já que funções iniciais ou de estágios — como as que envolvem desenvolvimento básico ou identificação ou correção de bugs— são fundamentais para a formação e evolução na carreira desses profissionais.

Marsili destaca que o cenário já conta com inúmeras startups nascendo com soluções baseadas em IA, além da chegada dos primeiros unicórnios — empresas que atingem valor de mercado bilionário. Apesar desse avanço, o número de profissionais qualificados para atuar com IA ainda é relativamente baixo. Ao mesmo tempo, grandes empresas de tecnologia e organizações de diversos setores estão adaptando ou reorganizando suas equipes para incorporar a inteligência artificial em suas rotinas de trabalho.

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