A atuação dos conselhos de administração está passando por um processo de transformação, com o uso estratégico da inteligência artificial como parte do dever de diligência dos conselheiros.
“Os conselhos de administração estão diante de uma mudança ainda em fase inicial, mas inevitável: a inteligência artificial já não é mais luxo ou tendência, mas uma ferramenta essencial para decisões bem embasadas. Hoje, não basta ler relatórios; é preciso interpretar grandes volumes de dados com agilidade e visão estratégica. Conselheiros que ignoram a IA correm um sério risco de ficarem para trás. A boa governança passa a exigir curiosidade tecnológica, abertura ao novo e capacidade de integrar a IA como aliada, e não como ameaça”, diz o advogado Marcus Valverde, sócio do Marcus Valverde Sociedade de Advogados.
“O dever fiduciário de um conselheiro exige que ele atue com diligência e boa-fé, tomando decisões com base em informações adequadas”, comenta Marina Ferreira, Senior Client Partner da Korn Ferry. Tradicionalmente, isso significava ouvir especialistas, desafiar premissas e revisar relatórios. No entanto, esse padrão está mudando rapidamente.
“Muito em breve, será difícil alegar que uma decisão foi bem informada sem o apoio de uma IA, especialmente se empresas concorrentes já estiverem utilizando essas ferramentas como parte do processo decisório”, diz a especialista.
“Tradicionalmente, conselheiros se apoiavam em relatórios contábeis, pareceres jurídicos e projeções elaboradas por especialistas. Com a crescente complexidade do ambiente de
negócios, isso não é mais suficiente. A IA permite cruzar grandes volumes de dados em tempo real, entregando análises preditivas e alertas automatizados sobre riscos
operacionais, regulatórios e financeiros. O conselheiro diligente de hoje precisa ir além da leitura técnica. Ele deve ser capaz de antecipar cenários e isso exige tecnologia”, comenta Jhonny Martins, vice-presidente do SERAC, hub de soluções corporativas nas áreas contábil e jurídica.
Decisões estratégicas
Martins explica que IA já vem sendo aplicada em análises para expansão de unidades, fusões e aquisições e decisões de entrada no mercado de capitais.
Na preparação para um IPO, por exemplo, algoritmos conseguem simular múltiplos cenários e mapear com precisão os riscos de exposição pública. “O mesmo vale para a abertura de uma nova filial, onde a IA ajuda a prever demanda, logística e retorno sobre investimentos”, destaca Martins.
Para Valverde, a IA é uma ferramenta poderosa que, se bem utilizada, pode servir como auxiliar ou até mesmo guia para os conselheiros. “Com um poder de processamento de informações muito superior ao de seres humanos, a inteligência artificial pode fazer conexões entre diversos dados, explicitando fatos que provavelmente não seriam notados pelos conselheiros”, diz Valverde. “Identificar de riscos ocultos, monitorar os KPIs e fornecer análises automatizadas de compliance e ESG são alguns dos exemplos do que uma IA é capaz de ofertar aos conselheiros durante uma reunião do conselho administrativo”, elenca o advogado.
Luís Molla Veloso, especialista em IA e Embedded Finance, concorda que a inteligência artificial pode ser uma grande aliada na tomada de decisões estratégicas de alto impacto, como a abertura de uma nova unidade ou a realização de um IPO. “Ao integrar e processar grandes volumes de dados internos e externos, como desempenho operacional, comportamento do consumidor, tendências de mercado, variáveis macroeconômicas e movimentações da concorrência, a IA fornece análises preditivas que ajudam os conselheiros e executivos a visualizar cenários, mensurar riscos e identificar oportunidades com mais precisão”, considera Veloso.
Desafios
Apesar de ser uma importante aliada dos conselhos de administração, o uso da inteligência artificial requer cuidados.
“O avanço da IA traz novos desafios, especialmente no que diz respeito à governança da própria tecnologia. Conselhos precisam avaliar criticamente os algoritmos utilizados, considerando critérios de transparência, ética e mitigação de vieses. Isso exige capacitação contínua, além da possível inclusão de conselheiros com conhecimento técnico em dados e tecnologia”, aconselha Veloso.
Para ele, à medida que cresce a complexidade regulatória e a velocidade das mudanças, conselhos que incorporarem a IA de forma estratégica e responsável estarão mais bem posicionados para liderar suas organizações com segurança e visão de futuro.
“O papel do conselho aqui não é técnico, mas estratégico: garantir que os projetos de IA estejam alinhados aos objetivos de longo prazo da empresa e que estejam sendo tratados com seriedade, não como modismos”, ensina Marina.
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