A inteligência artificial tem ganhado espaço de forma bastante estratégica nos processos de recrutamento e seleção de profissionais. Hoje, muitas empresas utilizam IA desde a fase de mapeamento de perfis até a triagem e análise de candidatos.
“Ferramentas inteligentes são alimentadas com dados como currículos, histórico profissional, testes técnicos e até interações em redes sociais profissionais. A partir disso, os algoritmos conseguem identificar padrões que apontam para candidatos com alto potencial de aderência às vagas — chegando até a sugerir, quem tem maior chance de sucesso naquela posição”, explica Camilo Alfeu Zanette, diretor executivo da Croma Consultoria de Recursos Humanos.
Ele explica que a sua empresa, por aturar com perfis altamente especializados nas áreas contábil, fiscal e financeira, utiliza IA principalmente na fase de hunting. “Trabalhamos com grandes bases de dados e, nesse cenário, o uso de machine learning tem sido essencial para aprimorar continuamente nossos critérios de busca”, diz ao destacar que o sistema aprende com cada processo encerrado, o que aumenta a precisão nas próximas buscas e otimiza nosso tempo de resposta com os clientes.
“Além disso, vemos empresas que já incorporaram soluções mais avançadas, como chatbots com inteligência artificial que realizam triagens iniciais. Esses robôs fazem perguntas, analisam as respostas e conseguem avaliar aspectos como clareza na comunicação, domínio técnico e até fit cultural. Isso libera os recrutadores para as etapas mais analíticas e humanas do processo — onde, de fato, o julgamento profissional é insubstituível”, diz.
Mais agillidade
Zanette explica que a IA tem se mostrado uma aliada poderosa para tornar os processos seletivos mais ágeis, escaláveis e precisos. Um dos maiores ganhos está na triagem automatizada de currículos. Softwares baseados em IA conseguem, em questão de minutos, analisar muitas candidaturas e destacar os perfis mais aderentes a uma vaga — considerando palavras-chave, experiências anteriores e até soft skills, dependendo da tecnologia adotada.
Recentemente, a Petlove anunciou a redução de 75% no tempo de contratação com o uso de IA no processo seletivo. Chamada de Path.IA, a IA é uma agente de recrutamento. O objetivo, além de otimizar os processos da área de aquisição de talentos, é de que a agente aumente a fluidez na jornada dos profissionais, promovendo experiências de excelência para os candidatos.
Em duas semanas de implementação, PathIA participou de mais de 50 processos seletivos e já concretizou sua primeira contratação.
“Nossa nova agente de recrutamento traduz o espírito da Petlove em cada interação: seu sorriso digital acolhe e sua inteligência conecta, tudo isso com a missão clara de oferecer a melhor experiência para os nossos talentos desde o primeiro contato”, afirma Bruno Junqueira, CHRO da Petlove.
“A Path.IA melhora e otimiza o dia a dia dos nossos times, combinando pilares essenciais para a nossa companhia: tecnologia, eficiência e propósito. Nossa nova agente de recrutamento contribui de forma importante com a construção de um futuro em que a tecnologia potencializa o que temos de mais vivo: o cuidado com os pets — e com as pessoas que fazem tudo isso acontecer”, complementa o executivo.
Outra empresa que também está usando a inteligência artificial no recrutamento de profissionais é a BRF. O ExperiencIA faz a leitura dos currículos recebidos e monta um ranking dos candidatos mais bem avaliados, de acordo com a descrição da vaga.
O algoritmo de inteligência artificial foi desenvolvido no ano passado e, em seis meses de uso, ajudou a companhia a reduzir o tempo de recrutamento em 25%.
Vantagens e desvantagens
Uma das vantagens para o uso de IA em recrutamento, segundo a Petlove, é que com ela não há um limite para a quantidade de entrevistas realizadas pela agente. se o candidato se aplicou à posição, ele será atendido pela recrutadora IA – independentemente de quantas pessoas já entraram em contato (em posições com mais de 5 mil aplicações, ela interagiu com 100% dos talentos).
Zanette destaca ainda a automação de tarefas operacionais, o ganho de tempo e a maior assertividade na triagem de talentos. “A IA tem uma capacidade impressionante de lidar com volumes massivos de informação e identificar padrões que, muitas vezes, escapariam até ao olhar mais experiente. Isso permite que os recrutadores direcionem seus esforços para as fases mais estratégicas do processo, como a análise comportamental e o alinhamento cultural”, concorda.
Por outro lado, diz ele, as desvantagens existem e não devem ser ignoradas. “Um ponto sensível, do ponto de vista técnico e ético, é o risco de viés algorítmico. Se os dados que alimentam a IA forem enviesados — por exemplo, com histórico de contratações pouco diversas — o sistema pode aprender e perpetuar esse comportamento. Além disso, há o risco de uma certa padronização excessiva, que pode excluir perfis fora da curva, mas altamente promissores.
Cuidados
Especialistas destacam que é fundamental agir com transparência e ética. O uso de IA deve ser claro para todas as partes envolvidas. As empresas precisam garantir que os sistemas utilizados sejam auditáveis, ou seja, que se possa entender por que um candidato foi ou não selecionado. Além disso, os dados utilizados para treinar os algoritmos precisam ser constantemente revisados para evitar a reprodução de preconceitos históricos.
“Outro ponto importante é não abrir mão do fator humano. A tecnologia pode — e deve — apoiar o processo, mas não deve ser o único filtro decisório. Os profissionais de RH precisam manter seu senso crítico, validar os insights oferecidos pela IA e considerar aspectos que a máquina ainda não consegue captar com profundidade, como traços de liderança, potencial de desenvolvimento e motivação real do candidato”, diz Zanette.
Por fim, há o aspecto jurídico. É indispensável garantir a conformidade com legislações como a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais) no Brasil. Isso significa obter o consentimento dos candidatos para uso de seus dados, informar com clareza como essas informações serão utilizadas e protegê-las adequadamente. “A credibilidade de uma empresa começa com a forma como ela trata seus talentos — e isso inclui o respeito à privacidade e à transparência no uso da tecnologia”, finaliza Zanette.
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